Pular para o conteúdo principal

Dra. Aline Luiza Estevam – Gastroenterologista pediátrica em Novo Hamburgo – RS

Se o seu filho sofre para fazer cocô, reclama de dor na barriga, evita sentar no vaso ou parece “segurar” as fezes, isso merece atenção. A constipação intestinal é muito comum na infância e pode causar desconforto importante para a criança e bastante preocupação para a família.

Muitos pais acreditam que constipação significa apenas ficar vários dias sem evacuar. Mas nem sempre é assim. Há crianças que fazem cocô todos os dias e ainda assim podem estar constipadas, porque evacuam pouco, com dor, com muito esforço ou sem esvaziar bem o intestino.

Neste artigo, vou te explicar como reconhecer os sinaispor que isso acontecequando é hora de se preocupar e como ajudar seu filho da forma mais adequada.

Qual médico trata constipação infantil?

A constipação pode ser acompanhada inicialmente pelo pediatra. Mas, quando o quadro se torna persistente, doloroso, recorrente ou vem acompanhado de dor abdominal, escape de fezes, dificuldade importante para evacuar ou dúvida diagnóstica, a avaliação com gastroenterologista pediátrica é indicada.

A Dra. Aline Luiza Estevam é pediatra e gastroenterologista pediátrica, com atendimento voltado a bebês, crianças e adolescentes. Por ser especialista em constipação, seu olhar não fica restrito apenas ao cocô: ela avalia a rotina da criança, a alimentação, o desfralde, a presença de dor, os episódios de retenção e o impacto disso no dia a dia da família — além de estar atenta a outras causas que possam gerar sintomas parecidos.

Busca sempre compreender a dinâmica da família e tratar o paciente com empatia, porque sabe que esse é um assunto delicado para a criança e para quem cuida dela.

Gastroenterologista pediátrica que trata constipação na criança

O que é constipação intestinal na infância?

A constipação intestinal acontece quando a criança apresenta dificuldade para evacuar, fezes endurecidas, dor ao fazer cocô ou um padrão intestinal que mostra que o intestino não está funcionando bem.

Isso pode aparecer de várias formas, como:

  • fezes ressecadas ou em bolinhas
  • muito esforço para evacuar
  • dor ao fazer cocô
  • medo de evacuar
  • evacuações pouco frequentes
  • sensação de que não conseguiu eliminar tudo
  • “sujinhos” de fezes na roupa

Em muitas crianças, o problema entra em um ciclo: evacuar dói, a criança começa a evitar o momento de fazer cocô, as fezes ficam mais tempo no intestino, endurecem ainda mais e a próxima evacuação fica mais difícil. Esse ciclo de dor e retenção precisa ser interrompido.

Como saber se meu filho está com intestino preso?

Nem sempre a criança vai conseguir explicar claramente o que está sentindo. Por isso, observar o comportamento no dia a dia faz muita diferença.

Alguns sinais que podem indicar constipação são:

  • a criança faz força para evacuar
  • reclama de dor na hora do cocô
  • fica na ponta dos pés, cruza as pernas ou se esconde quando sente vontade
  • faz cocô muito grande, muito duro ou em bolinhas
  • suja a roupa com pequenas quantidades de fezes
  • sente dor abdominal com frequência
  • evita o banheiro
  • fica irritada perto do horário de evacuar

Muitas vezes, esse comportamento não é manha. A criança pode estar tentando evitar a dor ou o desconforto de evacuar.

Criança que faz cocô todos os dias pode estar constipada?

Sim. Esse é um ponto que costuma confundir muitas famílias.

Evacuar todos os dias não significa necessariamente que o intestino está funcionando bem. Algumas crianças evacuam diariamente, mas eliminam fezes pequenas, endurecidas ou em pouca quantidade, sem esvaziar adequadamente o intestino.

Nesses casos, elas podem continuar com:

  • dor abdominal
  • estufamento
  • esforço para evacuar
  • desconforto recorrente
  • retenção de fezes

Por isso, ao avaliar constipação, não importa apenas a frequência. Também é importante observar como são as fezesse existe dorse a criança está segurando e se há alívio real após evacuar.

fezes de padrão constipação

O que pode causar constipação nas crianças?

Na maior parte das vezes, a constipação infantil está relacionada ao funcionamento intestinal e ao comportamento de retenção, e não a uma doença grave.

Entre os fatores que podem contribuir para o problema, estão:

  • evacuação dolorosa anterior
  • medo de usar o banheiro
  • desfralde
  • entrada na escola
  • mudanças de rotina
  • baixa ingestão de água
  • alimentação pouco variada
  • hábito de adiar a evacuação
  • seletividade alimentar em alguns casos

Cada criança precisa ser avaliada dentro do seu contexto. Às vezes, o quadro começa depois de uma fase de fezes endurecidas. Em outras situações, aparece junto com dor abdominal recorrente, recusa alimentar, medo do vaso ou escapes fecais.

Constipação pode causar dor abdominal?

Sim. A constipação é uma causa muito comum de dor abdominal na infância.

Quando as fezes ficam acumuladas no intestino, a criança pode apresentar:

  • dor na barriga
  • distensão abdominal
  • desconforto após as refeições
  • perda de apetite
  • irritabilidade
  • sensação de mal-estar

Em alguns casos, a família percebe primeiro a dor abdominal e só depois entende que o intestino preso está por trás do problema.

Se a dor na barriga é frequente, vale observar com cuidado como estão as evacuações da criança.

Quando a dificuldade para evacuar costuma começar?

Existem dois momentos cruciais na vida da criança em que a constipação pode surgir ou piorar:

  • Na Introdução Alimentar: É uma fase de grandes mudanças para o bebê! Com a chegada de novos alimentos além do leite, o corpo e, principalmente, o intestino precisam se adaptar. É comum que o cocô mude de consistência. Mas com uma oferta adequada de fibras e líquidos, costuma ser algo passageiro. Se o ajuste e melhoria não forem rápidos, é necessário buscar ajuda sim.
  • No desfralde: A criança adquire controle de esfincteres (capacidade de segurar urina e fezes); Se apresentar dor ou medo na evacuação começa a não querer mais evacuar, fazendo com que as fezes fiquem cada vez mais endurecidas e gerem mais dor para evacuar. A intervenção precoce pode trazer grande benefício. Essa fase é muito crítica, pois a criança julga que evacuar gera dor e segura cada vez mais, piorando as fezes e gerando dor.

Se a criança está constipada, o desfralde não deve ser conduzido enquanto houver dor, medo de evacuar ou retenção importante. Tratar o intestino primeiro cosuma tornar esse processo mais tranquilo e mais bem-sucedido.

Sinais de constipação na criança e retenção fecal

Quando devo me preocupar mais?

Alguns sinais indicam que é importante procurar avaliação médica:

  • dor importante para evacuar
  • sangue nas fezes de repetição
  • medo intenso de fazer cocô
  • retenção frequente
  • escape de fezes na roupa
  • dor abdominal recorrente
  • distensão abdominal
  • vômitos
  • redução do apetite
  • constipação persistente
  • piora progressiva do quadro

Quando a constipação começa a afetar o bem-estar da criança, o humor, a alimentação, o sono ou a rotina da família, ela não deve ser minimizada.

“Se seu filho sofre para evacuar, segura as fezes ou sente dor com frequência, vale investigar mais cedo para evitar que o quadro se prolongue.

Como o diagnóstico da constipação infantil é feito?

Na maioria das vezes, o diagnóstico da constipação infantil é feito com uma conversa detalhada com a família e um exame físico cuidadoso. Ou seja: na maior parte dos casos, não é preciso pedir muitos exames logo no início para identificar o problema com segurança.

Atualmente, usamos critérios clínicos internacionais atualizados, como os do Roma V, para organizar essa avaliação. Isso ajuda a tornar o diagnóstico mais preciso e evita olhar apenas para a quantidade de evacuações.

Na prática, o diagnóstico não depende só de quantas vezes a criança faz cocô. Também avaliamos sinais como fezes endurecidasdor para evacuaresforçocomportamento de retençãoescape de fezes na roupa em crianças já desfraldadas e o relato de fezes muito grandes.

De forma geral, o diagnóstico é considerado quando a criança apresenta pelo menos dois desses sinais por pelo menos 1 mês, e quando os sintomas não são melhor explicados por outra condição médica.

Além de confirmar a constipação, a consulta também ajuda a diferenciar a forma mais comum, chamada constipação funcional, daqueles casos em que existem sinais de alerta e pode ser necessário investigar outras causas.

Na maioria das crianças, uma boa anamnese e um exame físico bem feito já são suficientes para conduzir o diagnóstico inicial. Exames complementares podem ser necessários em situações específicas, mas geralmente ficam reservados para casos com dúvida diagnósticasinais de alerta ou suspeita de outra doença associada.

Dor abdominal também pode estar presente e é muito comum nesses casos, mas sozinha não define o diagnóstico.

“Se seu filho apresenta sinais frequentes de constipação, uma avaliação cuidadosa ajuda a entender o quadro e definir a melhor condução para o tratamento

O que os pais podem fazer em casa?

Algumas medidas podem ajudar, principalmente nos quadros iniciais. Entre elas, estão:

  • incentivar boa hidratação
  • organizar horários mais previsíveis para evacuar
  • respeitar o tempo da criança no vaso
  • evitar broncas e constrangimento
  • observar o padrão das fezes
  • prestar atenção aos sinais de retenção
  • cuidar da alimentação de forma individualizada

A posição no vaso também faz diferença: quando a criança apoia bem os pés e consegue relaxar, evacuar tende a ficar mais fácil e menos desconfortável.

Mas é importante fazer um alerta: nem sempre mudanças caseiras isoladas resolvem o problema.

Quando a criança já apresenta dor, retenção importante, escapes fecais ou constipação persistente, ela pode precisar de uma abordagem mais completa.

Algumas frutas, como ameixa e kiwi, podem ajudar na rotina intestinal de algumas crianças, dentro de um plano alimentar individualizado.

Constipação tem tratamento?

Sim, e o tratamento costuma trazer bastante alívio quando o quadro é avaliado corretamente.

A condução depende de vários fatores, como:

  • idade da criança
  • intensidade dos sintomas
  • tempo de evolução
  • presença de dor
  • retenção de fezes
  • alimentação
  • rotina intestinal
  • impacto do quadro na vida da família

O tratamento pode incluir orientação para os pais, organização do hábito intestinal, ajustes de rotina, abordagem alimentar e, quando indicado, tratamento medicamentoso.

O mais importante é entender que não existe uma solução única para todas as crianças. Cada caso precisa ser analisado com cuidado.

“Um dos erros mais comuns é interromper o tratamento assim que a criança melhora.”

Outro ponto fundamental é que o tratamento da constipação costuma exigir continuidade. Em muitos casos, ele é feito por 3 a 6 meses, conforme a resposta da criança e a evolução clínica.

Uma melhora inicial não significa, necessariamente, que o intestino já se reorganizou por completo. Quando o tratamento é interrompido antes da hora, o quadro pode piorar novamente, com retorno da dor, da retenção e da dificuldade para evacuar.

Por isso, suspender o tratamento antes do prazo e sem o seguimento adequado pode trazer prejuízo para a criança. O acompanhamento é importante para consolidar a melhora, ajustar a condução quando necessário e reduzir o risco de recaída.

Quando vale agendar uma avaliação?

Vale procurar ajuda quando seu filho:

  • sente dor para fazer cocô
  • segura as fezes com frequência
  • apresenta dor abdominal recorrente
  • evacua com muito esforço
  • suja a roupa com fezes
  • tem fezes muito duras repetidamente
  • não melhora com medidas iniciais
  • faz a família perceber que algo não está indo bem

Quanto antes a constipação é reconhecida e tratada, maiores as chances de evitar sofrimento prolongado e complicações do quadro.

Se você está percebendo esses sinais, uma avaliação pode ajudar a entender a causa e definir a melhor conduta para o seu filho.

“Se você reconheceu um ou mais desses sinais no seu filho, uma avaliação pode ajudar a entender o que está acontecendo e definir a melhor conduta.”

Perguntas frequentes sobre constipação infantil

Quantos dias sem evacuar é preocupante em uma criança?

Depende da idade, da rotina intestinal e, principalmente, de como estão as fezes e o desconforto da criança. Mais importante do que contar dias é observar se existe dor, esforço, retenção e fezes endurecidas.

Criança que faz cocô todos os dias pode estar constipada?

Sim. Se evacua com dor, esforço, fezes duras ou em pequena quantidade, ainda pode haver constipação.

Só alimentação resolve?

Nem sempre. Em alguns casos, a alimentação ajuda bastante. Em outros, a criança precisa de uma abordagem mais ampla e individualizada.

Constipação pode causar dor abdominal?

Sim. Esse é um achado muito comum na infância e, em muitos casos, a dor abdominal melhora quando a constipação é tratada adequadamente.

Escape de fezes na roupa pode ter relação com intestino preso?

Sim. Em algumas crianças, esse “sujinho” acontece porque há retenção de fezes no intestino. Isso acontece quando o intestino está tão cheio que a criança perde a sensibilidade e não percebe que um pouco de cocô está escapando.

É crucial que a família entenda que, na maioria dos casos, a criança não tem culpa! Ela já perdeu a sensibilidade. Esse quadro pode gerar muito desconforto, vergonha e isolamento social, impactando o desenvolvimento emocional da criança. A empatia e o tratamento adequado são fundamentais.

Em casos de retenção prolongada, o reto pode ficar progressivamente distendido, o que reduz a sensibilidade local e favorece os escapes fecais. A imagem abaixo ilustra esse processo.

fezes endurecidas em ampola retal

Conclusão

A constipação infantil é comum, mas não deve ser ignorada quando começa a causar dor, medo de evacuar, retenção frequente ou impacto na qualidade de vida da criança.

Quanto mais cedo o quadro é reconhecido, mais fácil costuma ser interromper esse ciclo e devolver conforto para a criança e tranquilidade para a família.

Se seu filho apresenta sinais de intestino preso, dor ao evacuar ou dor abdominal recorrente, vale buscar uma avaliação para entender o que está acontecendo e conduzir o tratamento com segurança.

Depoimentos Reais

Leia também:

Disquezia do lactente: quando o esforço para evacuar é normal

 Doença do refluxo gastroesofágico em bebês e crianças 

Constipação intestinal — SBP (material para famílias)

Constipação em crianças — Manual MSD

Constipação — BMJ Best Practice