Disquezia do Lactente: Entenda o Choro e a Força na Hora do Cocô
Ah, a maternidade e a paternidade! Uma jornada repleta de amor, descobertas e, claro, muitas dúvidas. Entre as inúmeras preocupações que surgem com a chegada de um bebê, o momento do cocô costuma ser um dos campeões. É comum ver pais e mães aflitos, observando seus pequenos fazerem força, ficarem vermelhos e chorarem na hora de evacuar. Se você se identifica com essa cena, saiba que não está sozinho(a). Muitas vezes, o que parece ser um grande problema intestinal é, na verdade, uma condição muito comum e passageira: a disquezia do lactente.
Neste artigo, vamos desvendar os mistérios por trás da disquezia, entender o que é normal no hábito intestinal dos bebês e quando é a hora de procurar ajuda. Meu objetivo é trazer clareza, tranquilidade e, acima de tudo, empatia para essa fase tão delicada da vida de vocês e de seus filhos.

Quem Pode Ajudar Seu Filho com o Cocô?
Eu sou a Dra. Aline Luiza Georg Estevam, e como gastropediatra, dedico minha vida a cuidar da saúde digestiva de crianças e adolescentes, desde o nascimento até os 18 anos. Minha formação acadêmica sólida e anos de experiência em consultório me permitiram desenvolver um olhar atento e um cuidado humanizado para cada paciente e sua família.
Minha especialização em gastropediatria me capacita a diagnosticar e tratar uma vasta gama de condições que afetam o sistema digestório infantil, desde as mais comuns, como a disquezia e a constipação, até as mais complexas. Acredito que cada criança é única e merece um plano de cuidado individualizado, que considere não apenas os sintomas, mas todo o contexto familiar.

No meu consultório particular, a consulta vai muito além do exame físico. É um momento de escuta ativa, de troca de informações e de construção de uma relação de confiança. Entendo que a preocupação dos pais é legítima e que a clareza nas explicações é fundamental. Por isso, faço questão de usar uma linguagem simples e e garantindo que todas as suas dúvidas sejam respondidas.
Meus valores como médica são pautados na empatia, no conhecimento atualizado e na busca constante pela excelência. O que me diferencia é a forma como encaro cada atendimento: com a certeza de que estou ali para acolher, orientar e oferecer o melhor tratamento possível. Quero que você se sinta seguro(a) e compreendido(a), sabendo que seu filho está em mãos experientes e dedicadas.
Se você busca um acompanhamento especializado e humanizado para a saúde digestiva do seu filho, convido você a conhecer meu trabalho. Estou aqui para ajudar a transformar suas preocupações em tranquilidade e bem-estar para toda a família.
Disquezia do Lactente: O Que É e Por Que Acontece?
Vamos começar desmistificando um termo que pode soar complicado, mas que é mais simples do que parece: a disquezia do lactente. Imagine que seu bebê está aprendendo a andar. Ele tenta, cai, levanta, tenta de novo. É um processo de amadurecimento, certo? Com o cocô, acontece algo parecido.
A disquezia é uma dificuldade passageira que os bebês têm para coordenar os movimentos necessários para evacuar. Basicamente, o bebê precisa aprender a fazer força com a barriguinha (aumentar a pressão abdominal) e, ao mesmo tempo, relaxar o esfíncter do ânus. Parece fácil para nós, adultos, mas para um recém-nascido, é uma verdadeira orquestra de músculos que ainda não está afinada.
Essa imaturidade neuromuscular é a grande responsável pela disquezia. O bebê sente a vontade de fazer cocô, faz a força correta, mas, por um reflexo involuntário, acaba contraindo o ânus em vez de relaxá-lo. O resultado? Muito esforço, choro, vermelhidão no rosto e, por fim, o cocô sai, geralmente mole e em grande quantidade, como se nada tivesse acontecido.

Disquezia Não é Constipação! A grande diferença
É fundamental entender que disquezia não é constipação (prisão de ventre). Essa é a principal confusão que vejo no consultório. Na disquezia, as fezes do bebê são moles e de consistência normal. O problema não é a dureza do cocô, mas sim a dificuldade em expulsá-lo. Se o cocô do seu bebê está duro, em bolinhas ou ressecado, aí sim estamos falando de constipação, que é outra condição e requer uma abordagem diferente.
Quais os Sinais da Disquezia?
Os sintomas da disquezia são bastante característicos e costumam aparecer antes dos 9 meses de idade, com um pico nos primeiros 3 meses. Fique atento(a) a estes sinais:
- Choro intenso e inconsolável: O bebê chora muito antes de evacuar, como se estivesse sentindo dor, mas geralmente não é dor intensa.
- Rosto vermelho e esforço visível: O bebê faz muita força, fica com o rosto vermelho, encolhe as perninhas.
- Gemidos e resmungos: Sons de esforço são comuns durante o episódio.
- Duração do episódio: Esse esforço e choro podem durar de 10 a 20 minutos.
- Fezes moles após o esforço: O mais importante: quando o cocô finalmente sai, ele é mole, pastoso e de consistência normal.
O Que fazer Quando o Bebê Tem Disquezia?
A boa notícia é que a disquezia é uma condição benigna e que se resolve sozinha com o tempo, à medida que o bebê amadurece. Não há necessidade de medicamentos, supositórios, chás ou estimulação retal (como usar cotonete no ânus do bebê). Essas intervenções podem até atrapalhar o processo de aprendizado do bebê e criar uma dependência.
O melhor que você pode fazer é:
- Acolher e acalmar: Ofereça conforto ao seu bebê. Pegue-o no colo, converse com ele, faça massagens suaves na barriguinha no sentido horário. O carinho e a segurança que você transmite são fundamentais.
- Tenha paciência: Lembre-se que é um processo de aprendizado. O bebê está desenvolvendo uma nova habilidade. Confie na capacidade dele de amadurecer.
- Observe: Preste atenção na consistência das fezes. Se elas forem moles, mesmo com todo o esforço, é disquezia. Se forem duras ou ficar um tempo muito longo fazendo a força/choro procure seu gastropediatra para investigar a constipação ou outras anormalidades anais

O Hábito Intestinal do Bebê: O que é normal em cada fase?
O cocô do bebê é um excelente indicador da sua saúde digestiva. No entanto, o que é considerado
normal” varia bastante de acordo com a idade, o tipo de alimentação e até mesmo de bebê para bebê. Vamos entender as principais características:
Recém-Nascidos (0 a 1 mês)
Nos primeiros dias de vida, o bebê elimina o mecônio, uma substância esverdeada escura e pegajosa. Após isso, as fezes se tornam mais verde ou amareladas e semi-líquidas. Bebês amamentados exclusivamente no peito podem evacuar a cada mamada (devido ao reflexo gastrocólico) ou, surpreendentemente, ficar até 7 a 10 dias sem fazer cocô! Sim, isso mesmo. Se o bebê está mamando bem, ganhando peso, ativo e as fezes, quando saem, são moles, não há motivo para preocupação. O leite materno é tão bem aproveitado que gera pouco resíduo. Claro, só aguardamos se o bebê estiver bem, sem desconfortos por este motivo.
Já os bebês que tomam apenas fórmula infantil tendem a ter fezes mais consistentes (pastosas) e com uma frequência menor, geralmente uma a três vezes ao dia. A cor pode variar do amarelo ao marrom claro.
Lactentes (1 mês a 6 meses)
Nessa fase, a frequência das evacuações pode se estabilizar. Bebês amamentados ainda podem ter um ritmo variado, mas é comum que diminuam a frequência em relação aos primeiros dias. Bebês que tomam fórmula continuam com um padrão mais regular. A consistência das fezes continua sendo um ponto chave: devem ser moles ou pastosas.

Introdução Alimentar (a partir dos 6 meses)
Com a introdução de alimentos sólidos, o mundo do cocô do bebê muda completamente! Você notará alterações na cor, no cheiro e, principalmente, na consistência. É normal que as fezes se tornem mais firmes e que a frequência diminua. Pequenos pedacinhos de alimentos não digeridos também podem aparecer, o que é totalmente normal nessa fase de adaptação do sistema digestório.
Atenção: Nesta idade é comum o surgimento de fezes endurecidas e que podem gerar dor ou desconforto na evacuação. Se isso acontecer, prontamente inicie as frutas mais laxativas para que as fezes voltem ao normal. Caso sigam muito endurecidas converse com seu pediatra ou gastropediatra para auxílio.
Crianças Maiores (a partir de 1 ano)
A partir de um ano, e especialmente após os dois anos, o padrão de evacuação se assemelha mais ao do adulto, com fezes mais formadas e uma frequência que pode variar de uma a três vezes ao dia, ou até a cada dois dias, desde que as fezes sejam macias e a criança não sinta dor ou desconforto para evacuar.
Caderneta de saúde da criança
Caso você ainda não tenha, baixe a caderneta de saúde de seu filho(a) no gov.br para acompanhar o padrão de fezes e as curvas de crescimento de seu filho. Lá, você irá encontrar a imagem abaixo que lhe auxiliará na avaliação da coloração das fezes de seu bebê. Deixarei o link no final do texto para você conseguir baixar a sua!

O Padrão das Fezes: Conheça a Escala de Bristol
Para ajudar a entender melhor a consistência das fezes, existe uma ferramenta muito útil, adaptada para crianças, que chamamos de Escala de Bristol. Ela nos ajuda a classificar o cocô em diferentes tipos, indicando se está tudo bem ou se há algum sinal de alerta.
| Tipo de Fezes | Descrição | O Que Significa |
| Tipo 1 | Caroços duros separados, como nozes | Constipação severa. As fezes estão muito ressecadas. |
| Tipo 2 | Formato de salsicha, mas encaroçado | Constipação. As fezes estão ressecadas. |
| Tipo 3 | Formato de salsicha, com rachaduras na superfície | Normal. Fezes bem formadas e saudáveis. |
| Tipo 4 | Formato de salsicha ou cobra, lisa e macia | Normal. Fezes ideais e fáceis de evacuar. |
| Tipo 5 | Pedaços moles com bordas nítidas | Normal para lactentes, mas pode indicar tendência a diarreia em crianças maiores. |
Importante: Para bebês amamentados, é comum que as fezes sejam mais líquidas e amareladas, muitas vezes classificadas entre o Tipo 4 e 5, ou até mais líquidas, sem que isso signifique diarreia, desde que o bebê esteja bem e ganhando peso.
Quando Procurar o Gastropediatra?
Embora a disquezia seja benigna e o hábito intestinal tenha uma ampla variação de normalidade, existem alguns sinais de alerta que indicam a necessidade de uma avaliação especializada. Não hesite em procurar um gastropediatra se o seu filho apresentar:
- Fezes duras, em bolinhas ou ressecadas: Isso pode indicar constipação, que precisa ser investigada e tratada o quanto antes; A intervenção precoce evita medo evacuatório e fissuras anais.
- Dor ou choro intenso ao evacuar, mesmo com fezes moles: Pode ser um sinal de alguma outra condição que cause dor.
- Sangue nas fezes: Sempre um sinal de alerta que exige avaliação médica.
- Perda de peso ou dificuldade em ganhar peso: Problemas digestivos podem afetar a absorção de nutrientes.
- Vômitos frequentes ou persistentes.
- Distensão abdominal (barriga inchada) persistente.
- Mudança brusca no padrão de evacuação, acompanhada de outros sintomas como febre, irritabilidade ou prostração.
Lembre-se, a saúde digestiva do seu filho é fundamental para o seu desenvolvimento e bem-estar geral. Um acompanhamento com um especialista pode fazer toda a diferença para garantir que seu pequeno cresça saudável e feliz.
Conclusão: Tranquilidade e Cuidado Especializado
Entender a disquezia do lactente e o que esperar do hábito intestinal do seu bebê pode trazer muita tranquilidade para os pais. É um período de aprendizado e amadurecimento para o pequeno, e a paciência e o acolhimento são seus maiores aliados.
No entanto, saber identificar os sinais de alerta e ter a confiança de que você pode contar com um profissional especializado é essencial. Como gastropediatra, estou aqui para oferecer esse suporte, com um cuidado que une conhecimento técnico, empatia e a sofisticação que sua família merece. Não hesite em buscar ajuda se tiver dúvidas ou preocupações. Juntos, podemos garantir a saúde e o bem-estar do seu filho.
Caderneta da Criança:
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-da-crianca/caderneta
Leia mais:
Referências:
[1] Sociedade Brasileira de Pediatria. Quantas vezes o bebê pode evacuar por dia? Disponível em: https://www.sbp.com.br/pediatria-para-familias/primeira-infancia/quantas-vezes-o-bebe-pode-evacuar-por-dia/
[2] Tua Saúde. Disquesia: o que é, sintomas, causas e como tratar. Disponível em: https://www.tuasaude.com/disquesia/
[3] Buscopan. O que é disquesia do lactente? Descubra como tratar o quadro. Disponível em: https://www.buscopan.com.br/blog/pediatrico/o-que-e-disquesia-do-lactente-descubra-como-tratar-o-quadro
[4] Be Generous. Disquesia do lactente: o que é, como reconhecer e aliviar. Disponível em: https://begenerous.com.br/blog/disquesia-do-lactente/
[6] Dr. Marcus Felipe Pediatra. Meu Bebê não está fazendo cocô: o que é normal? Disponível em: https://www.drmarcusfelipepediatra.com/artigos/meu-beb%C3%AA-n%C3%A3o-est%C3%A1-fazendo-coc%C3%B4-o-que-%C3%A9-normal
[7] Pediatra Campinas. Escala do Cocô: O que é a Escala de Bristol? Disponível em: https://www.pediatracampinas.com.br/escala-do-coco-o-que-e-a-escala-de-bristol/